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  • Bruno Brunelli

Feijoada de São Jorge

23 de Abril, dia de um dos santos patronos desse nosso Brasil: São Jorge, onde muitos batem também para o Orixá Ogum (e muitos outros para Oxóssi). Porém hoje vai se falar bastante sobre isso, então iremos falar de outra coisa muito especial no dia de hoje: A FEIJOADA!


__Contexto histórico

Como tudo nessa vida, nada é do nada, mas sim uma construção, às vezes rápida, às vezes lenta. Com a feijoada não foi diferente, e não se tem um ponto de origem, quando nos demos conta já tava lá! 


Porém algumas coisas já se tem certeza, como a falácia de que a Feijoada é uma criação das senzalas de escravo, onde os negros aproveitavam os "restos" de seus senhores para fazer sua própria comida. Muito pelo contrário, as partes salgadas do porco (pés, orelhas, rabo) e seus embutidos eram iguarias para os europeus, bastante usados em seus pratos.

Tanto por que era bem difícil os escravizados terem carnes para comer, sendo sua dieta baseada principalmente por aquilo que conseguiam plantar em suas pequenas roças, quando não era apenas feijão e farinha. E OLHA LÁ. Há também o motivo que muitos eram muçulmanos, e a carne de porco era proibida.


O feijão é universal, e aqui em Pindorama já existia algumas variedades, sendo a principal o nosso conhecido Feijão Preto, chamado por grupos guaranis ora comanda, ora comaná, cumaná ou kumanda. Comida de sustância, o populacho comia bastante feijão cozido com sal e charque, misturados com farinha ou de mandioca ou de milho.


O termo Feijoada vem dos Portugueses. É uma receita bem comum na Europa - basicamente um cozido de grãos, legumes e pedaços de carne -, e cada país tem a sua. Na Itália, a casoeula e o bollito misto; na França, o cassoulet; na Espanha, a paella (essa porém feita à base de arroz). Tanto que mundo a fora, a nossa feijoada é identificada como "Feijoada à Brasileira".


__ OU SEJA

… a Feijoada é de fato uma releitura feita pela burguesia das receitas européias, porém se usando ingredientes nativos daqui (tanto por que o feijão preto é muito mais gostoso, né!). Mais que um prato, a feijoada é um cardápio inteiro, como bem lembra Câmara Cascudo; super nutrida, super deliciosa. 



E apesar de ser mais conhecida a Feijoada Carioca, o que não faltam são formas diferentes de se fazer aqui no Brasil. A Baiana, a Maranhense, a Capixaba, e por aí o limite não é o céu, mas o gosto da boa cozinheira.


Como falamos antes, não existe um ponto de origem de quando a nossa feijoada realmente surgiu, mas dá pra ver pela história as primeiras menções de ser servida em restaurantes. A principal delas apareceu no Rio de Janeiro pela primeira vez no Jornal do Commercio em 5 de Janeiro de 1849, em anúncio sob o título A Bela 'Fejoada' à Brasileira: “Na casa de pasto junto ao botequim da Fama do Café com Leite, tem-se determinado que haverá em todas as semanas, sendo às terças e quintas-feiras, a bela 'fejoada', a pedido de muitos fregueses."


__Ogum Yê, Salve Jorge!

Mas por que a Feijoada virou comida de santo? 


Bom, o conto que mais se acredita e difundida é do babalorixá Procópio d'Ogum, difundida por sua afilhada Mãezinha:  "Um dia Procópio estava comendo em sua casa. Chegou um filho de santo, com quem ele tinha brigado. Então, Procópio manda ele embora com outra briga. Com isso, comete um grande erro para o candomblé: negar comida a um filho de santo. O santo pegou Procópio e falou que ele estava multado. Na semana seguinte, ele deveria fazer uma feijoada no terreiro convidando todo o mundo. Colocava-se uma esteira no chão, na ponta da esteira a panela de barro com a feijoada. Todos deveriam, ali, comê-la. Ao tocarem na comida, todas as filhas de santo "caíam no santo". Não era uma feijoada como costumeira, mas uma feijoada com preparos, temperos e carnes especiais."


Há quem diga também que antes disso a Feijoada já era ofertada pra Ogum por conta de, além de guerreiro, ele também ser o orixá da agricultura e da fartura. É de seu ferro que são feitas as ferramentas do campo, do plantio à colheita.


Existe um itan onde Oxaguiã e seu povo, em agradecimento pelas ferramentas, o oferta com "banquetes de inhames, caracóis, e feijão-preto regado com azeite de dendê e cebolas". Afinal, o feijão é um alimento rico em que? FERRO!


E é por conta do sincretismo entre Ogum e São Jorge que a Feijoada é obrigatória no dia 23 de Abril, dia de São Jorge - esse que também foi um agricultor e é padroeiro dos agricultores e soldados.


Mais do que isso, lembremos que as refeições são tratos sociais! O ato de se alimentar é comunitário, estreita laços, dá alegria e alimento para corpo e alma, com amigos, família, seres amados. E nada melhor que uma boa feijoada, um sambinha, uma cerveja gelada, para ser feliz! Afinal, como diria o mestre Luiz Antonio Simas: "Não se faz festa porque a vida é mole, mas pela razão inversa."

Axé pra quem é de AxéAmém pra quem é de Amém"(Pois) Sim vou na igreja festejar meu protetorE agradecer por eu ser mais um vencedorNas lutas nas batalhasSim vou no terreiro pra bater o meu tamborBato cabeça firmo ponto sim senhor"

__Referências:

Feijoada: breve história de uma instituição comestível - Rodrigo Elias

História da Alimentação no Brasil - Luís Da Câmara Cascudo

Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi

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